Tecnologia e desenvolvimento motor das crianças

Manobras feitas em skates ou bicicletas reais estão bem longe de ser integralmente simuladas por jogos eletrônicos
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por Carla Tieppo

Vivemos imersos em ferramentas tecnológicas que ocupam todos os campos da nossa vida. Elas atingem especial relevância nos meios produtivos, mas têm um papel de destaque na indústria do entretenimento. Aparatos tecnológicos de uso rotineiro como smartphones e tablets são usados para distrair nossos filhos, tornando-se verdadeiros substitutos dos brinquedos. Na verdade, são vendidos como brinquedos. E possibilitam a vivência de experiências virtuais tão ricas que podem facilmente entreter uma criança o dia inteiro.

Esse já era o papel que a televisão vinha tentando desempenhar. Sendo uma alternativa segura de entretenimento e uma alternativa eficiente para não deixar a criança solta, correndo perigos ou dando trabalho, recebia o apoio dos pais. Tal contato íntimo e cotidiano foi usado para plantar no cérebro emocional dessas crianças as necessidades de consumo que norteiam nossa sociedade atual. Mas os jogos eletrônicos e o entretenimento digital são ainda mais eficazes em manter a criança totalmente absorta em seu universo virtual.

Não estou pedindo a fogueira para os consoles e plataformas de jogos digitais. É sabido que a interação deles com o cérebro poderá provocar um desenvolvimento cognitivo muito favorável, especialmente se o material digital empregado tiver algum cuidado em ser motivador e educativo ao mesmo tempo. Outros jogos eletrônicos, por outro lado, são verdadeiros desserviços à construção de um perfil socioemocional equilibrado e articulado com as necessidades da sociedade.

Mas o que está sendo deixado de lado de forma muito perigosa é o desenvolvimento das habilidades motoras das crianças. Ao trocar os jogos com bola reais por vivências virtuais, muito do desenvolvimento motor global vai ficando de lado. O desenvolvimento dos circuitos cerebelares que temporizam e sequenciam os movimentos necessários para o equilíbrio, a marcha, o salto e a corrida é bastante prejudicado. Manobras feitas em skates ou bicicletas reais estão bem longe de poder ser integralmente simuladas por jogos eletrônicos. E a diminuição dos estímulos para o desenvolvimento do cerebelo poderá impactar diretamente a capacidade de produzir raciocínios automatizados quando o assunto for linguagem ou matemática. Cada vez temos mais indícios experimentais que associam a capacidade cognitiva de um indivíduo com funções do cerebelo de sequenciamento e automatização de comportamentos.

Defendo que a tecnologia também esteja antenada com essas necessidades e desenvolva aparatos que requeiram cada vez mais a atividade física lúdica para serem usados. Assim, não caminharemos a passos largos para a apologia da mente e suas habilidades em detrimento do corpo e da consciência corporificada.

Neurocientista, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), diretora pedagógica Inédita Cursos, de extensão em neurociência.

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