Sobre meninas e ciências exatas

Estereótipos culturais afastam mulheres do universo da computação. A escola pode ajudar a desconstruir percepções que interferem negativamente no interesse por essa área
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ESPECIAL | Edição 4

por Allison Master, Sapna Cheryan e Andrew N. Meltzoff

Shutterstock
Por que na maioria dos países há muito mais rapazes do que garotas cursando ciências da computação? Muitos, superficialmente, atribuem isso a uma falta de interesse “natural”, ignorando o peso de fatores sociais, particularmente estereótipos culturais sobre esse campo profissional. Essas percepções, mesmo que não sejam precisas, podem moldar as escolhas acadêmicas das meninas, que recebem mensagens subjetivas sobre “o lugar a que pertencem”. Culturalmente determinados, porém, preconceitos são maleáveis. Desconstruí-los pode ser uma forma de atrair estudantes do gênero feminino para a ciência da computação, beneficiando assim toda a sociedade.

Nos Estados Unidos, mulheres representam menos de 20% dos graduados na área, diferentemente do que ocorre em outros campos da ciência, como a biologia, na qual são maioria. Podemos destacar pelo menos duas razões pelas quais as disparidades de gênero na ciência da computação são problemáticas.

Primeiro: elas perdem a oportunidade de ter empregos lucrativos, de alto prestígio e que podem render vários benefícios. Segundo: áreas diversificadas têm maiores chances de produzir instrumentos que atendam adequadamente uma ampla população. Muitos acreditam que, se as mulheres decidem livremente não seguir a área, talvez nada possa ser feito – afinal de contas, é sua opção. Nossa pesquisa, porém, evidencia as barreiras sociais que interferem nessa decisão, mostrando que as escolhas não são tão livres como se pode imaginar.

Um dos problemas são ideias ultrapassadas sobre a cultura da ciência da computação. Iniciamos com dados dos Estados Unidos, onde fizemos a maior parte do estudo. Embora tenhamos investigado preconceitos STEM (sigla que engloba ciência, tecnologia, engenharia e matemática) em países asiáticos e valorizemos as perspectivas interculturais, não realizamos pesquisas com estudantes brasileiros. Com essa limitação em mente, procuramos discutir os resultados com base em alunos do ensino médio e universitários americanos, considerando semelhanças e diferenças culturais relacionadas com a identidade e os estereótipos.

Apontamos três campos em que os clichês culturais podem ser transmitidos: mídia, pessoas da área e ambientes. Propomos a ideia de que esses preconceitos colaboraram com disparidades de gênero em relação ao interesse de entrar na ciência da computação mesmo antes da faculdade, já entre estudantes do ensino médio. Embora ideias ultrapassadas sejam poderosas, são também bastante maleáveis. Transformá-las pode ajudar a incentivar meninas a ingressar na área (sem dissuadir os meninos). Defendemos a ideia de que os rótulos funcionam como “guardiões”, restringindo a passagem. A boa notícia é que algumas intervenções ajudam a ampliar a representação cultural da ciência da computação e a atrair maior diversidade.

Lugares-comuns

O que há por trás dos estereótipos na área da ciência da computação? Boa parte dos alunos do ensino médio ou universitários, quando pensa sobre um profissional desse campo, imagina uma figura clichê, alguém socialmente desajeitado, apaixonado por tecnologia e com interesses considerados masculinos, como videogames. O trabalho na área é visto por muitos como algo isolado e relativamente separado de objetivos comuns, como ajudar a sociedade e interagir com outros. Esses estereótipos são bastante difundidos nos Estados Unidos e em outras sociedades ocidentais. E grande parte dos estudantes endossa essas ideias – aproximadamente 67% dos universitários americanos citaram pelo menos um estereótipo quando solicitados a descrever um profissional do setor. Obviamente, muitos cientistas da computação não se encaixam nesses clichês. Mas acreditar nisso é suficiente para afetar atitudes e escolhas, mesmo que essas percepções sejam desconectadas da realidade (veja abaixo).

Divulgação

O seriado The Big Bang Theory retrata cientistas como homens, em sua maioria brancos e obcecados por tecnologia. Uma vizinha, loira e pouco inteligente, é a principal personagem feminina

Estereótipos sobre essa área são percebidos, em grande parte, como incompatíveis com qualidades valorizadas em mulheres, como a feminilidade e a preocupação com pessoas. Quando essas ideias ganham força, a tendência é que elas, mas não os homens, tendam a acreditar que são muito diferentes das pessoas da área; além disso, a ter menor “sentimento de pertencimento”, a sensação de que se encaixam na cultura da área. Quanto menos um aluno sente que faz parte de uma área, menor é a probabilidade de insistir nela. Alterar essas ideias, porém, pode permitir que meninas e mulheres acreditem que são bem-vindas na ciência da computação.

Os efeitos dos estereótipos? Entre estudantes do ensino médio, as meninas tendem, em relação aos meninos, a participar menos de aulas de programação ou a manifestar interesse em carreiras na ciência da computação. Com isso, a área perde uma grande população feminina que não chega sequer a estudar inicialmente o tema, quem dirá escolhê-lo para cursar a faculdade. Fechar essa lacuna de gênero demandará medidas para atrair as meninas para esses campos.

A maioria dos estudantes do ensino médio não frequenta aulas sobre ciência da computação e não tem experiência direta na área. Assim, o que muitos conhecem sobre o campo é baseado no senso comum. Destacamos três meios principais de exposição a estereótipos: mídia, contato com profissionais da área e sensação de pertencimento.

O que está na mídia

Nos Estados Unidos, filmes populares e programas de televisão, como The Big Bang Theory e Silicon Valley, costumam retratar os cientistas da computação como homens, brancos, socialmente inábeis e obcecados por tecnologia, a exemplo do personagem Sheldon, do primeiro seriado: excessivamente metódico, inteligente e antissocial. Alunos do ensino médio relatam que suas ideias sobre as características que esses profissionais devem ter são mais influenciadas pela mídia do que por qualquer outra fonte. Para investigar até que ponto a exposição aos canais de comunicação interferem nos interesses, pedimos a universitárias que lessem um entre dois artigos científicos falsos. O primeiro afirmava que cientistas da computação se encaixavam nos estereótipos atuais, enquanto o outro mostrava que os profissionais da área mudaram e já não seguiam o mesmo padrão. As mulheres que entraram em contato com este último se mostraram mais interessadas no campo do que aquelas que leram o primeiro ou as que não receberam nenhum artigo. Transformar a imagem que fazemos desse campo pode, portanto, ajudar a aumentar o interesse delas.

Profissionais reais

Cientistas da computação que personificam esses estereótipos podem desencorajar as mulheres a entrar na área. Pedimos a algumas universitárias que conversassem brevemente em uma sala com atores ou atrizes contratados por nós que afirmavam ter licenciatura em ciência da computação. As conversas giraram em torno de informações básicas (por exemplo, idade, profissão, hobbies).

Metade dos atores e atrizes interpretou os cientistas da maneira mais estereotipada possível, tanto na aparência como nas ideias: usavam óculos e camisetas com frases como “Codifico, logo existo” e comentavam animadamente jogos de video-game. A outra parte não: vestia jeans, roupas básicas e dizia gostar de sair com os amigos. Em seguida, as participantes foram questionadas sobre seu grau de interesse na área. Resultado: as que interagiram com aqueles com comportamento clichê se mostraram menos interessadas em ciência da computação do que as que conversaram com os outros participantes, independentemente do sexo. Os efeitos permaneceram por duas semanas. Logo o que mais as influenciou não foi o gênero, e sim o grau de adesão aos estereótipos.


Sensação de pertencimento

Lugares que retratam a área como mais compatível com características relacionadas aos homens tendem a atrair menos mulheres. Selecionamos outros universitários (sem licenciatura na área) e os dividimos em dois grupos. Então, pedimos que cada turma se dirigisse a uma sala de aula de ciência da computação. O primeiro ambiente havia sido decorado com objetos clichês associados à ciência, como cartazes do filme Star Trek, livros de ficção científica e latas de refrigerante; o segundo, com pôsteres de natureza, revistas neutras e garrafas de água. Observamos que mulheres que entraram nesse último ambiente demonstraram maior interesse no campo do que aquelas que visitaram a sala cheia de figuras estereotipadas. Esses elementos não afetaram os homens. O mesmo padrão foi observado em relação a aulas virtuais. Por que o lugar com objetos clichês desestimulou mais elas do que eles? As mulheres tiveram menor sensação de pertencimento nesse ambiente em relação ao outro. Diferentemente, os homens, na sala com conteúdo associado à ciência, demonstraram igual ou maior sensação de pertencimento.

Alunos do ensino médio, no mesmo contexto, também mostram efeitos semelhantes em relação ao interesse. As meninas eram mais propensas a escolher uma sala de aula sem estereótipos (68%), enquanto os meninos não mostraram preferência (48%). Assim como suas colegas de faculdade, as garotas sentiram que se enquadravam menos do que os rapazes. Elas demonstraram também maior tendência a serem dissuadidas de participar de um ambiente clichê (mas não de um comum) de informática. Assim, muitas acabam optando por outros campos, em parte, devido à inibição que pode ser causada por estereótipos, que, não raro, retratam a ciência da computação de uma maneira que não corresponde ao modo como elas se enxergam. Apresentar a elas imagens que não sejam clichês pode ajudá-las a diluir a sensação de intimidação e, assim, aumentar a curiosidade sobre a área, sem reduzir o interesse dos meninos.

Muitos alunos são atraídos para esses campos justamente por causa do estereótipo. Nos estudos sobre o ambiente, observamos que algumas mulheres (em geral, menos de 25%) optaram por salas clichês, e alguns homens preferiram lugares neutros. Em vez de tentar reformular os estereótipos atuais, uma estratégia mais eficaz pode ser diversificar a imagem desses campos para que os alunos não precisem acreditar que devem se ajustar a um molde específico para se sentir à vontade.

Diversificar e incluir

Propomos alterar a imagem estereotipada dos alunos com a ajuda de intervenções relativamente simples no ambiente e nos meios de comunicação. Indicamos também diversificar aqueles que representam esses campos. Não é preciso que as pessoas deixem de ser nerds. Criar culturas inclusivas pode ser uma abordagem mais bem-sucedida. Assim, os alunos que pensam em trabalhar nessas áreas não têm de acreditar que é preciso incorporar os clichês para se sentir pertencentes. A mensagem principal de nossa pesquisa é: variabilidade é fundamental. Em vez de retratar a ciência da computação como uma área estreita, facilmente estereotipada – e que, portanto, pode levar muitos estudantes a acreditar que não se enquadram no campo, o que pode afastá-los –, propomos alterar a forma como a cultura desse setor é representada para os jovens. Ampliar a imagem mental deles sobre o que significa ser um cientista da computação pode ajudar não só a atrair mais meninas como também a esclarecer detalhes sobre a área e identificar quais estudantes têm potencial para seguir carreira.

Leituras sugeridas
Cultural stereotypes as gatekeepers: increasing girls’ interest in computer science and engineering by diversifying stereotypes. S. Cheryan, A. Master e A. Meltzoff. Frontiers in Psychology, vol. 6, no 49, 2015.

Cognitive consistency and math-gender stereotypes in Singaporean children. D. Cvencek, A. Meltzoff e M. Kapur. Journal of Experimental Child Psychology, no 117, págs. 73-91, 2014.

The stereotypical computer scientist: gendered media representations as a barrier to inclusion for women. S. Cheryan, V.C Plaut, C. Handron e L. Hudson. Sex Roles, no 69, págs. 58-71, 2013.

Classrooms matter: the design of virtual classrooms influences gender disparities in computer science classes. S. Cheryan, A. Meltzoff e S. Kim. Computers & Education, no 57, págs. 1825-1835, 2011.

Math–gender stereotypes in elementary school children. D. Cvencek, A. Meltzoff, A. Greenwald. Child Development, no 82, págs. 766-779, 2011.

Ambient belonging: how stereotypical cues impact gender participation in computer science. S. Cheryan, V. Plaut, P. Davies e C. Steele. Journal of Personality and Social Psychology, no 97, págs. 1045-1060, 2009.

 


Os autores

Allison Master e Sapna Cheryan são doutoras em psicologia do desenvolvimento e em psicologia social, respectivamente. São pesquisadoras do Laboratório de Estereótipos, Identidade e Pertencimento (SIBL) do Departamento de Psicologia da Universidade de Washington.

Andrew Meltzoff é codiretor do Instituto de Ciências do Cérebro e Aprendizado da Universidade de Washington e professor do Departamento de Psicologia da instituição.

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