O cérebro da criança não espera

A pré-escola e o início do ensino fundamental são uma oportunidade única para ensinar o alicerce fonológico e fonêmico necessário para aprender a ler
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PONTO DE VISTA | Edição 5

por Augusto Buchweitz

alfabetizaçãoHá uma expressão conhecida: ensinar é uma arte. Hoje, essa arte tem de estar amparada em ciência. Assim como a ciência, a criatividade e a arte nem sempre funcionam. Ciência e arte precisam se completar para que nenhuma criança fique para trás. O cérebro de uma criança não vai esperar. É preciso saber o quê, como e quando ensinar. Saber avaliar crianças, estabelecer a educação baseada em evidências para mudar o que não funciona. O tradicional “esperar para ver” pode ser tarde demais. O cérebro de uma criança está pronto para aprender e não pode esperar – e a neurociência ajuda a explicar por quê.

Ensinar tornou-se mais complexo no Brasil. Ao bom passo, atingiu-se o acesso universal e inclusivo necessário, mas em palestras e cursos percebo uma angústia que se repete: “O que eu faço?”. A neurociência não tem uma resposta única. Nenhuma área, seja no campo das humanas ou das biológicas, sozinha, tem. Abandonemos os dogmas na educação brasileira. Aceitemos a participação da ciência. Da parte da neurociência, fixo-me em um ponto: a neuroplasticidade. O nosso cérebro, ao longo da vida, tem essa propriedade fantástica de alterar-se devido a mudanças no ambiente, ao aprendizado, a emoções e a alterações causadas por lesões. Essa propriedade nos permite recuperar a fala após uma lesão cerebral e aprender ao longo da vida. Mas, para aprender a ler, por exemplo, há um período especial.

A plasticidade é ótima e especial na criança. Na pré-escola e no início do ensino fundamental, tem-se a oportunidade única de ensinar o alicerce fonológico e fonêmico necessário para aprender a ler. Esse alicerce da alfabetização não pode esperar. Mas, se a plasticidade é uma propriedade do cérebro, por que a urgência? Pois pergunte a um professor do ensino de jovens adultos (EJA) o quanto é difícil alfabetizar tardiamente. A plasticidade de regiões sensoriais no cérebro é única na criança. O que isso significa? Não se pode esperar para estimular o desenvolvimento de habilidades pré-leitoras, como consciência fonológica; ou esperar para alfabetizar e desenvolver a consciência fonêmica, a fim de ensinar as associações fundamentais entre letra e som, que dependem de adaptações no sistema sensorial do cérebro da criança. Depois, fica mais difícil. Também por causa dessa janela de tempo, é preciso saber identificar o quanto antes as crianças que não estão aprendendo a ler e, principalmente, as que apresentam dificuldades que apontam para um risco de outras ainda maiores: os transtornos de aprendizagem. Ensinar a ler, avaliar e remediar tem de ocorrer logo, sob pena de ser tarde demais. Adaptando o slogan “A mente é algo terrível de desperdiçar”, do United Negro College Fund: o cérebro de uma criança é algo terrível de desperdiçar.


Augusto Buchweitz é doutor em letras, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), pesquisador do Instituto do Cérebro, coordenador do projeto Acerta (Avaliação de Crianças em Risco de Transtorno de Aprendizagem).

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