Filip de Fruyt Lapidando emoções

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Ajudar os estudantes a lidar com suas emoções é uma forma de alavancar a aprendizagem, sobretudo para alunos que vêm de contextos familiares menos favorecidos. “Professores são facilitadores para fazer as crianças se tornarem ‘quem são’, respeitando suas individualidades, diferenças e identidades”, explica o psicólogo Filip De Fruyt, líder da Cátedra Instituto Ayrton Senna, na Universidade de Ghent, na Bélgica. Inaugurada recentemente, a cátedra – que integra o eduLab21, laboratório de ciências aplicadas à educação criado pelo Instituto Ayrton Senna em 2015 – estuda o desenvolvimento de competências socioemocionais na infância e na juventude e ferramentas de avaliação dessas habilidades.

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Em entrevista à revista NeuroEducação, o professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Ghent explica como emoções podem infl uenciar o aprendizado, destacando resultados científi cos convincentes que mostram que a atenção dada ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais afeta diretamente o desempenho educacional de crianças e jovens.

NE: Qual a relação entre emoções e aprendizado?
F. F.: Gerenciar as próprias emoções é um mecanismo sociopsicológico-chave para se adaptar aos desafios e às dificuldades da vida. Isso envolve um processo de aprendizado complexo, que compreende: identificar e reconhecer o estado emocional de alguém, ser capaz de falar sobre isso e encontrar uma maneira funcional de resolver pequenos ou grandes desafios que vão aparecer na vida. Dada a importância das habilidades socioemocionais, nós deveríamos começar a desenvolvê-las desde cedo, para que os estudantes se beneficiem disso ainda na educação primária. Emoções têm importante valor adaptativo.

Muita ansiedade pode paralisar você, enquanto o oposto, isto é, sentir-se demasiadamente confiante, leva a um comportamento de risco excessivo ou de menos esforço no processo de aprendizado, resultando em fracasso ou perda.

Estar atento à capacidade de cada aluno de gerenciar suas emoções desde cedo vai ajudá-lo a lidar com adversidades do seu cotidiano, e também isso terá impacto direto em seu aprendizado.

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NE: Sobre o desenvolvimento socioemocional das crianças no ambiente escolar. Quais os impactos, tanto imediatos como futuros? F. F.: Habilidades socioemocionais são importantes em si e também afetam uma grande parte dos resultados da vida pessoal e profissional.

Ajudam tanto no aprendizado de disciplinas, como o português ou a matemática, como são ferramentas necessárias para o futuro, para atingir objetivos de curto e de longo prazo. Há resultados imediatos para os estudantes em três ambientes nos quais crianças e adolescentes convivem: a família, sua rede de relacionamentos – amigos e colegas – e o contexto escolar. Por exemplo, a capacidade de se relacionar com os outros ajuda os alunos a estabelecer conexões com colegas e adultos e a expressar suas ideias e opiniões. Essa capacidade é diretamente útil em qualquer interação diária. Habilidades colaborativas nos ajudam a criar laços fortes e a trabalhar em equipe, algo essencial para que a pessoa tenha apoio social, tenha um comportamento cidadão e responsabilidade diante de sua família, de seu grupo ou da sociedade em geral. A motivação ajuda os estudantes a terminar suas tarefas e a atingir objetivos. A capacidade de ter a mente aberta ajuda os alunos a explorar o mundo, o que facilita o aprendizado e sua capacidade de se adaptar a novas ideias, ambientes e desafios, além de permitir que eles percebam beleza na diversidade de pensamentos e de pontos de vista.

Lidar com as emoções ajuda o aluno a gerenciar melhor o fracasso e possíveis perdas, de maneira a torná-lo resiliente ao enfrentar obstáculos e dificudades.

NE: Qual o papel do professor nesse modelo de educação preocupado com o socioemocional? E o dos pais?

F. F.: Acho que tanto o professor quanto os pais têm um papel importante no desenvolvimento socioemocional do estudante. Idealmente, pais e professores atuam juntos para facilitar esse processo, embora eu saiba que isso muitas vezes não é possível por diferentes razões. Em alguns casos, o contexto familiar do estudante é desfavorável, e especialmente nesses casos o estímulo profissional do professor será crucial para apoiar o desenvolvimento desse aluno. Atividades de ensino voltadas para as questões socioemocionais podem estar integradas no currículo escolar, e deve haver uma atenção explícita em programas de capacitação dos professores sobre como desenvolver essas habilidades.

Parte das atividades do eduLab21 na cátedra de Ghent será direcionada a criar métodos baseados em evidências para apoiar os professores a atingir esses objetivos. Professores são facilitadores para fazer as crianças se tornarem “quem são”, respeitando suas individualidades, diferenças e identidades. É uma missão conjunta de professores e pais, e o eduLab21 vai trabalhar para também desenvolver em conjunto um vocabulário com o qual professores, pais e alunos possam dialogar sobre as habilidades socioemocionais e seu desenvolvimento.

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NE: Levando em consideração o sistema educacional brasileiro e seu currículo, quais sãos os principais problemas que o senhor vê? F. F.: Prefiro usar o termo “desafios”, porque muitos professores, diretores de escolas e gestores já estão fazendo um trabalho impressionante em seu cotidiano, em geral sem condições adequadas. Precisamos destacar e reconhecer essas contribuições.

Dito isso, a educação no Brasil enfrenta uma série de desafios, ainda mais no contexto da atual crise econômica e institucional pela qual o país passa. A primeira grande preocupação são as grandes taxas de abandono e atraso escolar.

Participar da educação formal e ter o diploma é de importância fundamental para as perspectivas de futuro de um indivíduo. Deveria haver um acompanhamento estruturalmente organizado do rendimento de todos os alunos, monitorando seu desempenho acadêmico e simultaneamente sua progressão em habilidades socioemocionais; dessa maneira o abandono escolar pode ser evitado. Enfrentar o problema do abandono vai se traduzir diretamente em melhores resultados de desempenho geral do ensino.

Outro ponto é que a profissão de professor tem pouco prestígio.

Isso precisa ser reavaliado e melhorado consideravalmente para que se reduza o número de desistências, diminua o número de faltas dos profissionais por doença – como burnout, ou síndrome do esgotamento profi ssional – e a qualidade do ensino possa ser garantida. Isso não é um problema específi co do Brasil, vale também para muitos países, como a Bélgica, país em que vivo. Programas de qualifi cação de professores deveriam dar exemplos práticos de como eles podem apoiar e facilitar o desenvolvimento socioemocional de seus alunos, além do foco atual em métodos didáticos de como ensinar matemática, línguas ou história. Ao mesmo tempo, esses programas precisam prestar atenção nas habilidades socioemocionais desses professores.

Dar início a uma conversa e ao ensino de habilidades socioemocionais para pais e alunos exige que os professores, e todos os profissionais envolvidos, tenham habilidades bem desenvolvidas nessa área.

Uma terceira preocupação são as condições do entorno em que a escola e o processo educacional estão inseridos. Aqui são necessários grandes esforços para criar um ambiente escolar seguro, acabando com a violência e com o bullying e estimulando um ambiente em que o aprendizado e o desenvolvimento possam ser promovidos.

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NE: Há uma grande pressão por escolas que preparem alunos para se sair bem em avaliações, como o vestibular. Como o senhor vê isso? Como defender uma educação que dê mais espaço para o desenvolvimento do indivíduo nesse contexto?

F. F.: O ens no do conteúdo curricular e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais não devem ser vistos como coisas diferentes; elas podem ser praticadas e ensinadas simultaneamente.

Um conteúdo específi co de história, por exemplo, pode ser ensinado usando-se métodos didáticos que pratiquem a colaboração e a abertura a novas experiências. Ensinar linguagens pode envolver sessões de fala em público, exercitando a cooperatividade.

Advogar pelo ensino de habilidades socioemocionais não implica reduzir a ênfase no ensino do currículo acadêmico, isso continua crucial para os resultados educacionais. E essa nova demanda também não exige necessariamente mais dos profi ssionais; muitos professores já trabalham implicitamente engajamento e formas práticas de habilidades socioemocionais, ainda que de maneira menos estruturada e menos sistematizada no processo educacional. Uma aproximação estruturada a fi m de chegar a bons resultados tanto acadêmicos quanto na área socioemocional deve dar resultados ainda melhores.

– Isabel Branco é jornalista e cientista social.

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