Deturpações e oportunismos

Quando ler sobre neuroeducação, verifique as fontes citadas e as informações sobre o profissional envolvido. Desconfie dos “messias” oferecendo milagres instantâneos
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por Alfred Sholl-Franco

Muitos já me perguntaram se a neuroeducação é uma área das neurociências ou se é uma técnica ou metodologia para melhorar o desempenho escolar. Posso começar dizendo o que a neuroeducação não é: técnica, método ou receita divina! Não irá curar problemas magicamente nem ensinará os pais, professores e demais profissionais da educação a resolver, através de fórmulas milagrosas, todos os dilemas ou déficits que o educando apresenta dentro ou fora da sala de aula e que limitam o seu desempenho escolar. Quem não gostaria que houvesse uma pílula ou botão que resolvesse qualquer problema sem esforço? Entretanto, lanço um aviso: cuidado com os caminhos curtos que são anunciados por aí, pois a neuroeducação não é um atalho, mas sim um grande campo de estudo e pesquisa que trabalha com a interação entre as ciências cognitivas, neurociências e educação. Estão muito enganados aqueles que procuram nesse novo campo uma via fácil para resolver todos os problemas. Nas últimas duas décadas, estudiosos têm se engajado na promoção de um diálogo profundo e interdisciplinar entre as três áreas citadas, agregando conhecimentos com o objetivo de promover o melhor entendimento dos processos de ensino e de aprendizagem e o desenvolvimento de recursos educacionais que levem em consideração o indivíduo, a escola e a sociedade. Isso é neuroeducação!

O diálogo entre a academia e a escola ainda deve ser intensificado por meio de diferentes abordagens promovidas por áreas como neuropsicologia, psicopedagogia e outras. O cuidado maior, ao estabelecer a neuroeducação como um novo campo de estudo, está sendo construir um forte diálogo entre os conhecimentos básicos e aplicados das neurociências no contexto escolar. A literatura acadêmica apresenta alguns casos, mas de modo isolado e esporádico. Precisamos que os profissionais imersos no ambiente escolar se aproximem da academia, assim como que os acadêmicos abram os olhos para as instituições educacionais como área de aplicação, promovendo um diálogo real, interdisciplinar e formador de novos pensamentos.

Que cuidados devemos tomar para que esse novo campo não seja alvo de oportunismos e apropriações indevidas? Bem, quando ler sobre neuroeducação, verifique as fontes citadas e as informações sobre o profissional envolvido. Desconfie dos “messias” oferecendo milagres instantâneos! A neuroeducação é um campo de estudo e pesquisa, não um supermercado de soluções fáceis para problemas complexos. Meu primeiro conselho no caso de cursos e palestras ligados à neuroeducação é: busque o currículo dos profissionais envolvidos e verifique se as instituições citadas são sólidas, veja o histórico de suas atividades e se existe o real envolvimento profissional e/ou acadêmico com projetos interdisciplinares relacionando neurociências, ciências cognitivas e educação. Uma boa dica é procurar o currículo Lattes (www.lattes.cnpq.br) do pesquisador/profissional, pois esse é o maior banco nacional de currículos. Por fim, busque se aprofundar nos conteúdos, pois uma das formas mais fáceis de prevenção é sempre a informação.

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