A internet e o cérebro social

As redes digitais ampliam possibilidades de interação, mas com o ônus da redução do contato físico, da conversa presencial, do olho no olho. Que tipo de adultos serão as crianças que já nasceram rodeadas de smartphones, tablets, notebooks e aplicativos para, virtualmente, qualquer coisa?
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ESPECIAL | Edição 5

por Tâmile Stella Anacleto, Fernando Mazzilli Louzada e Sofia Isabel Ribeiro Pereira

redes digitais e a interação social

Os filhos nos proporcionam experiências sublimes. Por exemplo, quando eles ainda têm poucas semanas de vida e começam a nos imitar. Um pequeno sorriso, uma feição de tristeza e, em pouco tempo, já são capazes de imitar sons, palavras, movimentos. A imitação é essencial para o desenvolvimento cognitivo da criança, o embrião de habilidades mais complexas que serão construídas nas primeiras décadas de vida. Essas habilidades são essenciais para a interação social e só surgirão e amadurecerão se houver interação. A capacidade de se colocar no lugar do outro é uma dessas habilidades. Graças a ela, choramos e rimos com personagens do cinema, da TV e do teatro. Com eles nos emocionamos, como se sentíssemos o que estão sentindo. Uma criança de 2 ou 3 anos ainda não adquiriu essa capacidade de maneira plena, que vai sendo construída por meio da interação social, da troca de olhares, da observação das reações dos pais e das outras pessoas. A conversa assume papel essencial no processo.

Nos últimos anos, temos vivenciado uma modificação nas interações sociais proporcionada pela tecnologia. As redes digitais ampliam possibilidades de interação, mas com a redução do contato físico, da conversa presencial, olho no olho. Da perspectiva das neurociências, refletiremos sobre como essas mudanças poderiam alterar o desenvolvimento das habilidades apresentadas anteriormente.

Atualmente conhecemos os mecanismos neurais subjacentes à interação social. Alguns autores chamam de cérebro social o conjunto das estruturas envolvidas (veja infográfico ao lado). Esse sistema compreende regiões do córtex pré-frontal, do sulco temporal superior e componentes dos sistemas límbico e paralímbico. A interação entre essas regiões nos permite reconhecer e reproduzir sentimentos expressos em um conjunto de movimentos que caracterizam um sorriso espontâneo ou uma feição de tristeza. Durante uma conversa olho no olho, por exemplo, grupos celulares presentes no sulco temporal superior recebem os sinais captados pelos sistemas sensoriais. Com isso, tais grupos celulares são capazes de detectar o foco da atenção e os movimentos do outro. Esses sinais são, então, retransmitidos para regiões dos sistemas límbico e paralímbico. É a vez de a amígdala, giro cingulado e córtex orbitofrontal avaliarem o conteúdo emocional desse contato. Por fim, esses sinais nervosos são enviados ao córtex pré-frontal. Nele, a síntese desse conteúdo previamente analisado pode ser utilizada para a nossa própria tomada de decisões ou, ainda, ativar populações de neurônios-espelho, necessários para que se possa reproduzir o movimento realizado pelo outro. É o que ocorre, por exemplo, quando sorrimos ou nos emocionamos com alguém.

Toda essa rede neural garante uma capacidade cognitiva que permite que se possam inferir o estado mental e as emoções do outro. E é essa capacidade de inferência que possibilita a interação social. E de que forma se poderia explicar evolutivamente a manutenção de tais redes neurais? A inteligência social parece ter surgido em primatas como resultado da pressão seletiva do ambiente em que viviam. Uma habilidade crucial para grupos que vivem sob forte dependência mútua e na presença de interações sociais complexas é a capacidade de reconhecer indivíduos dispostos a cooperar e indivíduos prontos para trapacear. O surgimento da teoria da mente, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro, pode ter facilitado a detecção e proteção contra trapaças, mas também reforçado a cooperação. Porém, essa vantagem evolutiva em contextos sociais complexos veio a um alto preço: maturação lenta e reprodução tardia. A aquisição ontogenética da teoria da mente não difere muito da de outras funções mentais, sendo, portanto, um processo demorado, que segue determinada sequência e depende da maturação do sistema nervoso central. A extensão do período juvenil em primatas (com o seu expoente máximo em humanos) parece ter sido crucial para a aquisição de um vasto repertório de estratégias comportamentais. Supondo-se que a teoria da mente é de fato tão importante assim para a vida humana, qualquer prejuízo funcional ou estrutural dos substratos neurais subjacentes a essa capacidade cognitiva deveria ser danoso para o funcionamento social. De fato, estudos têm mostrado que crianças com transtornos do espectro autista (TEA) têm extrema dificuldade em apreciar os estados mentais de outras pessoas.

Celular x conversar

Já se sabe que existe um impacto considerável do ambiente social no desenvolvimento da teoria da mente em crianças, levando a diferenças individuais perceptíveis. Por exemplo, crianças adquirem as habilidades da teoria da mente mais cedo se os seus pais utilizam mais frequentemente expressões que se referem a estados mentais ao se comunicar com elas. De forma semelhante, a presença de irmãos mais velhos acelera o surgimento da apreciação de outras mentes. Além disso, acredita-se que a capacidade de inferir os estados mentais de outros seja extremamente dependente da capacidade de introspecção.

A década atual tem sido marcada tanto pela expansão da variedade de mídias eletrônicas quanto pela expansão ao acesso a cada uma delas. É caracterizada também pelos almoços em família nos quais as pessoas trocam animadas conversas pela utilização de aparelhos eletrônicos. Estes são usados também para comunicação por meio de mensagens instantâneas entre pais e filhos que se encontram em cômodos distintos da casa. Grupos de amigos que saem à noite para conversar permanecem de cabeça baixa, atentos ao que se observa na tela do celular. O uso dos aparelhos eletrônicos tem se tornado uma das melhores formas de entreter crianças, que têm deixado de querer bicicletas, bolas ou bonecos e passado a desejar ansiosamente um celular para uso pessoal. Muitos pais admiram até mesmo a impressionante habilidade que os pequenos demonstram ao usar um smartphone ou um tablet. Toda essa alteração de comportamentos teria algum impacto sobre o desenvolvimento das futuras gerações?

Já se sabe que a exposição abusiva a mídias eletrônicas tem impactos negativos, tais como a redução das horas de estudo, de sono e de atividade física. Porém, como dito anteriormente, nosso interesse neste momento é refletir sobre o potencial efeito das mídias eletrônicas sobre o desenvolvimento das habilidades associadas à teoria da mente. Nos dias de hoje, as crianças têm acesso a aparelhos eletrônicos cada vez mais precocemente, os quais vêm ocupando parcelas cada vez maiores de seu tempo, em detrimento de interações sociais em tempo real, no “mundo real”. Nossa primeira preocupação é que, com isso, as oportunidades para aprender a ler as emoções e sentimentos alheios – e assim desenvolver a capacidade de se colocar no lugar do outro – estejam diminuindo à medida que outras formas de comunicação vão ganhando espaço, à medida que as conversas olho no olho são substituídas por e-mails, posts, mensagens ou até fotos.

Por fim, nossa segunda preocupação se apoia em outra consequência do uso exagerado de mídias eletrônicas (em qualquer faixa etária, mas com particular relevância durante a infância, quando as habilidades da teoria da mente estão se desenvolvendo). Como consequência, observa-se a redução de momentos sem interação com algum tipo de tecnologia, tais como na espera por atendimento em um consultório médico, durante uma refeição sem companhia de outra pessoa ou durante um trajeto de ônibus. Se qualquer intervalo de tempo livre de outras obrigações é imediatamente preenchido pela interação com aparelhos eletrônicos, a solidão deixa de ser uma oportunidade para reflexão ou introspecção. Ela passa a ser um estado de desconforto, tal como a fome, a sede ou o sono, que requerem alívio rápido. Nossa especulação – que também já é defendida por outros autores – é que, à medida que o exercício da autorreflexão é diminuído, o mesmo possa acontecer com a capacidade de inferir os estados mentais dos que nos rodeiam.

O uso de tecnologias digitais, apesar de já estar praticamente globalizado, é relativamente recente. Ainda não sabemos quais os seus efeitos a longo prazo, que tipo de adultos serão essas crianças que já nasceram rodeadas de smartphones, tablets, notebooks, redes sociais e aplicativos para virtualmente qualquer coisa. É preocupante pensar em como será viver em uma sociedade que pode estar perdendo a capacidade de perceber os estados mentais do outro e se colocar no seu lugar. Porém, não é tarde demais para refletir e, se for o caso, tomar providências. Não oferecer mídias eletrônicas a crianças menores de 2 anos e restringir o uso indiscriminado de mídias eletrônicas pelas crianças acima dessa idade, substituindo-o por momentos de atenção total entre pais e filhos, seria um bom começo. Sim, dá mais trabalho sentar no chão e brincar de faz de conta com o seu filho do que deixar que ele se entretenha sozinho com um tablet ou smartphone, mas, afinal de contas, não são esses momentos que fazem todo o resto valer a pena?

redes digitais e a interação social

Reconhecimento das emoções
1. Durante uma conversa olho no olho, grupos celulares presentes no sulco temporal superior recebem os sinais captados pelos sistemas sensoriais (olhos, ouvidos etc.).

2. Esses sinais são, então, retransmitidos para regiões dos sistemas límbico e paralímbico. É a vez de a amígdala, giro cingulado e córtex orbitofrontal avaliarem o conteúdo emocional desse contato.

3. Por fim, esses sinais nervosos são enviados ao córtex pré-frontal. Nele, a síntese desse conteúdo previamente analisado pode ser utilizada para a nossa própria tomada de decisões ou, ainda, ativar populações de neurônios-espelho, necessários para que se possa reproduzir o movimento realizado pelo outro.

 

Leitura sugerida
A construção social do cérebro. Fernando M. Louzada. Neuroeducação no 2, págs. 56-63, julho de 2012.

 


Os autores

Tâmile Stella Anacleto e Sofia Isabel Ribeiro Pereira são biólogas, doutorandas em biologia celular e molecular na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Fernando M. Louzada é neurocientista, pós-doutorado pela Harvard Medical School, coordenador do Laboratório de Cronobiologia Humana (Labcrono) da UFPR.

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