A busca pelo diálogo

O termo “neuroeducação” traz embutida a união de áreas de pesquisas bastante diferentes, cada uma com arcabouços teóricos e metodológicos próprios. É preciso esforço mútuo para que a troca de informações ocorra de forma efetiva e, quem sabe, revolucionária
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PONTO DE VISTA | Edição 6

por Guilherme Brockington

neurociência e educação

Guilherme Brockington é físico, pós-doutor em educação, professor do curso de graduação em ciências da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde conduz pesquisas em neurociência e educação, ensino de cências e formação de professores

Há um velho ditado africano que diz o seguinte: “Se você quer chegar rápido, vá sozinho. Mas, se você quer ir longe, vá acompanhado”. Ao imaginar a dureza do cotidiano de uma tribo na África, fica fácil compreender toda a sabedoria dessa fala. Ao se pensar na educação, tanto em termos concretos, como nossas salas de aula no Brasil, quanto em questões teóricas, sobre como ensinar melhor matemática, o ditado africano mantém perfeitamente sua grandeza e importância. Assim, para avançarmos no entendimento dos diferentes processos de desenvolvimento humano, é preciso que as neurociências e a educação caminhem juntas, lado a lado.

O termo “neuroeducação”, título desta revista, traz embutida a união de áreas de pesquisas bastante diferentes. Ainda que se elas debrucem sobre as complexidades dos seres humanos e suas interações sociais, cada uma possui arcabouços teóricos e metodológicos próprios, que divergem significativamente. Assim, é preciso um esforço mútuo para que o diálogo ocorra de forma efetiva, adequada e, quem sabe, revolucionária.

É bastante comum ouvir educadores em todo o país ansiosos por utilizar os avanços das neurociências em suas aulas. Mais que esperança, é alarmante o número de cursos de neuroeducação oferecidos nas secretarias de Educação do país, vendendo a preço de ouro como transformar a prática pedagógica por meio das “descobertas” científicas sobre o cérebro. A verdade é que os pesquisadores que trabalham nessa interface ainda não podem “prescrever” nenhuma metodologia brain-based para ensinar e aprender. Estamos no início da caminhada, e a jornada será longa e árdua até chegarmos, de fato, às salas de aula.

O que pode parecer desanimador, na verdade, é a ignição do motor da ciência. Justamente por ainda não sabermos como levar para os bancos das escolas o que fazemos no laboratório que esse diálogo é fundamental. E, a fim de buscar soluções, primeiramente, é preciso ouvir quem conhece de verdade os mais diferentes problemas educacionais: os professores. Somente assim o cientista poderá saber para onde guiar sua investigação. Ao mesmo tempo, os educadores precisam compreender o que pode fazer um neurocientista, entendendo em que ponto estamos no conhecimento do funcionamento do cérebro. Com isso, diversas ilusões serão mitigadas e buscas concretas sobre problemas reais poderão revolucionar a forma com que ensinamos e aprendemos. E isso só será possível quando educadores e neurocientistas caminharem juntos. Então, caminhemos!

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